Os abraços de Galeano

janeiro 31, 2010

 

 ”Nada que possa ser dito é capaz de chegar perto da beleza e da emoção que estas páginas contêm. Abra este livro com cuidado: ele é delicado e afiado como a própria vida. Pode afagar, pode cortar. Mas seja como for, como a própria vida, vale a pena.”

As palavras dos editores na contracapa do livro do escritor uruguaio não são figuras de retórica. Expressam fielmente o que nos provocam os textos reunidos nesses tão fortes abraços de Eduardo Galeano. É realmente preciso vivenciá-los com cuidado…

Mais um presente, para mim, do meu amor! Delicado e afiado como a própria vida… que vale a pena!

Sugestão de leitura para todos nós que amamos, somos delicados e afiados como a própria vida, que fazemos valer a pena!

Abaixo, Galeano em seu mágico momento de criação. O autor faz registros em seu verdadeiro livro de bolso.

Estes registros transformam-se em publicações, para nosso deleite… A seguir, uma pitada, só para aguçar o paladar…

A uva e o vinho

Um homem dos vinhedos falou, em agonia, junto ao ouvido de Marcela. Antes de morrer, revelou a ela o segredo: — a uva —  sussurrou – é feita de vinho.

Marcela Pérez-Silva me contou isso, e eu pensei: se a uva é feita de vinho, talvez a gente seja as palavras que contam o que a gente é.

 

 


Cartão de Natal (por mim mesma…)

dezembro 22, 2009

 

 

Hoje o correio funcionou. Não o correio eletrônico de todos os dias. Predominantemente telegráfico e quase sempre impessoal. Raramente quilométrico e abarrotado de pessoalidade afetiva, que até faz pensar que nada perdemos (até ganhamos em agilidade!), que o correio não faz falta.

Hoje o correio funcionou. O carteiro me visitou, ainda que não tenha conhecido minha porta e se valido de um intermediário, portador condominial, responsável por fazer chegar ao destino a correspondência. Mas hoje senti sua presença. Visualizei sua calça azul, sua blusa amarela. Aquela postagem só poderia ter chegado a minha casa por meio de um carteiro. E ele veio. Veio sim. Sei disso. Tenho certeza. Queria vê-lo. Cumprimentá-lo. Há quanto tempo não vejo um! Nenhum!

Hoje o correio funcionou. Ao chegar em casa, depois da lida diária, vislumbrei por debaixo da porta um pedacinho de papel amarelado. Coração disparado, pensei: com este modo de letra grafado, cobrança não é! O que é?

Delicadamente, o envelope abri – um Cartão de Natal!!! Não o de Frei Betto, mas trazendo mensagem tão importante e tocante quanto!… “Feliz Natal!”, em letra linda, lembrando manuscrita registrada no alto. Singela imagem do menino numa caixinha de madeira rodeada por três figurinhas humanas, rostinhos muito redondos, mãozinhas gordinhas postas, olhinhos contemplativos repletos de um amor profundo, infantil, o mesmo sentimento dos olhinhos do burrinho, da vaquinha, da ovelhinha, do coelhinho, do esquilinho e do passarinho compondo o presépio. Desenho de traços muito suaves – a suavidade das curvas que convidam e acolhem – e cores leves, aveludadas… cores de aquarela… cores da magia do arco-íris na íris dos olhos da criança…

No interior do cartão, a mensagem precedida pelo termo “querida”… como gosto desta expressão!… Letra cuidadosamente traçada, sem ser afetada ou pomposa, posturas que não combinam com a ocasião. Fluente, naturalmente desdobra-se em sentimentos de saudade, docilidade, fé, esperança, prosperidade, comunhão, amizade, amor. Inestimável… Um valor inestimável!

 

 

 

               

 

               


Cartão de Natal (Frei Betto)

dezembro 13, 2009

 

Feliz Natal a quem não planta corvos nas janelas da alma, nem embebe o coração de cicuta e ousa sair pelas ruas a transpirar bom-humor.

Feliz Natal a quem cultiva ninhos de pássaros no beiral da utopia e coleciona no espírito as aquarelas do arco-íris. E a todos que trafegam pelas vias interiores e não temem as curvas abissais da oração.

Feliz Natal aos que reverenciam o silêncio como matéria-prima do amor e arrancam das cordas da dor melódicas esperanças. Também aos que se recostam em leitos de hortênsias e bordam, com os delicados fios dos sentimentos, alfombras de ternura.

Feliz Natal aos que trazem às costas aljavas repletas de relâmpagos, aspiram o perfume da rosa-dos-ventos e levam no peito a saudade do futuro. Também aos que semeiam indignações, mergulham todas as manhãs nas fontes da verdade e, no labirinto da vida, identificam a porta que os sentidos não vêem e a razão não alcança.

Feliz Natal a todos que dançam embalados pelos próprios sonhos e nunca dizem sim às artimanhas do desejo. Aos que ignoram o alfabeto da vingança e jamais pisam na armadilha do desamor, pois sabem que o ódio destrói primeiro a quem odeia.

Feliz Natal a quem acorda, todas as manhãs, a criança adormecida em si e, moleque, sai pelas esquinas quebrando convenções que só obrigam a quem carece de convicções. E aos artífices da alegria que, no calor da dúvida, dão linha à manivela da fé.

Feliz Natal a quem recolhe cacos de mágoas pelas ruas a fim de atirá-los no lixo do olvido e guardam recatados os seus olhos no recanto da sobriedade. A quem resguarda-se em câmaras secretas para reaprender a gostar de si e, diante do espelho, descobre-se belo na face do próximo.

Feliz Natal a todos que pulam corda com a linha do horizonte e riem à sobeja dos que apregoam o fim da história. E aos que suprimem a letra erre do verbo armar e se recusam a ser reféns do pessimismo.

Feliz Natal aos que fazem do estrume adubo de seu canteiro de lírios. Também aos poetas sem poemas, aos músicos sem melodias, aos pintores sem cores e aos escritores sem palavras. E a todos que jamais encontraram a pessoa a quem declarar todo o amor que os fecunda em gravidez inefável.

Feliz Natal aos ébrios de transcendência e aos filhos da misericórdia que dormem acobertados pela compaixão. E a todos que contemplam ociosos o entardecer, observando como o Menino entra na boca da noite montado em seu monociclo solar.

Feliz Natal a quem não se deixa seduzir pelo perfume das alturas e nem escala os picos em que os abutres chocam ovos. E a todos que destelham os tetos da ambição e edificam suas casas em torno da cozinha.

Feliz Natal a quem, no leito de núpcias, promove uma despudorada liturgia eucarística, transubstanciando o corpo em copo inundado do vinho embriagador da perda de si no outro. E a quem corrige o equívoco do poeta e sabe que o amor não é eterno enquanto dura, mas dura enquanto é terno.

Feliz Natal aos que repartem Deus em fatias de pão e convocam os famélicos à mesa feita com as tábuas da justiça e coberta com a toalha bordada de cumplicidades.

Feliz Natal aos que secam lágrimas no consolo da fé e plantam no chão da vida as sementes do porvir. E aos que criam hipocampos em aquários de mistério e conhecem a geometria da quadratura do círculo.

Feliz Natal a quem se embebeda de chocolate na esbórnia pascal da lucidez crítica e não receia pronunciar palavras onde a mentira costura bocas e enjaula consciências. E a todos que, com o rosto lavado das maquiagens de Narciso, dobram os joelhos à dignidade dos carvoeiros.

Feliz Natal a todos que sabem voar sem exibir as asas e abrem caminhos com os próprios passos, inebriados pelos ecos de profundas nostalgias. E aos que decifram enigmas sem revelar inconfidências e, nus, abraçam epifanias sob cachoeiras de magnólias.

Feliz Natal aos que saboreiam alvíssaras nos bosques onde vicejam anjos barrocos e nadam suas gorduras deixando os cabelos brancos flutuarem sobre a saciedade de anos bem vividos. E a todos que dão ouvidos à sinfonia cósmica e, nos salões da Via Láctea, bailam com os astros ao ritmo de siderais incertezas.

Feliz Natal também aos infelizes, aos tíbios e aos pusilânimes, aos que deixam a vida escorrer pelo ralo da mesquinhez e, no calor de seus apegos, vêem seus dias evaporar como o orvalho aquecido pelo alvorecer do verão. Queira Deus que renasçam com o Menino que se aconchega em corações desenhados na forma de presépios.

 

 

 


Arte em linha

dezembro 4, 2009

 

Andei meio sumida porque estava fazendo arte…

Arte com linhas e agulhas!

De tão empolgada com o resultado, resolvi compartilhar minha alegria de contemplar minhas peças.

Mais empolgada ainda, decidi postar todas as minhas produções desses dois últimos anos. O tapete e a cortina são as mais novas conquistas.

Tapete de crochê em barbante cru… chic!

Cortina… poético!… (uma larguíssima barra em chochê dá o charme…)

Uma passadeira (crochê) em formato de peixe (se bem que… acho que é uma peixa…) quebra a monotonia do corredor…

Um tapetinho geométrico (crochê) para pisar com o pé direito ao sair da caminha…

Uma toalhinha (crochê) para a mesa em detalhes que lembram flores…

(Abaixo) Duas mantas em tricô (presentes…)

Sapatinhos em crochê (presentes) e minhas unhas que, neste dia, estavam lindas à espanhola!


Poema ilustrado

novembro 8, 2009

 

 

Ocaso

 

Andar, andar, andar…

Os olhos impregnados de céu.

Os ouvidos inundados de mar.

 

Andar, andar, andar…

Sentir as orelhas

O vento atravessar.

Nada, nada…

Nada mais escutar.

 

Andar, andar, andar…

Descobrir a lua, quase cheia,

Na areia molhada pelo mar.

Seguir, seguir, seguir…

Perseguir sua imagem

Até cansar.

 

Andar, andar, andar…

Respirar, respirar, respirar…

Respirar fundo.

Silêncio…

Silêncio profundo.

 

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Baleiro…

novembro 7, 2009

“Baleiro”?! Alguém saberia me dizer de onde vem esse nome?

É sobrenome mesmo, é aquele objeto de colocar balas (bombons) ou apelido de um franco-atirador (não necessariamente de balas! Quem sabe um franco-atirador de palavras?)??? Huuummm…

Bem, vamos ao que interessa!

Demais o show de Zeca Baleiro no Parque, 5 de novembro.

Além das obras-primas do cantor e compositor, e de sua descontração com a platéia, Zeca dividiu o palco com Tiago Araújo, compositor e cantor recifense que terá uma de suas composições no mais novo CD do maranhense, e com o grupo Cascabulho, que completa 15 anos de estrada e prepara o primeiro DVD para o ano que vem.

Quais serão as próximas atrações do Projeto Seis e Meia? Estamos na expectativa!

OBS.: intrigada com “Baleiro”, procurei o site oficial do cantor. A resposta para minha pergunta está lá, viu?  :-)

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A força de Elza…

outubro 25, 2009

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Elza Soares, como ela mesma diz que dizem, “é pau de dar em doido”.

Voz iniqualável, canto peculiar, fibra invejável, pessoa para se admirar.

Deu mais uma demonstração de força, profissionalismo e vida em seus recentes shows no Recife, 22 de outubro, no Parque, na programação do Projeto Seis e Meia.

Não deixou que uma forte gripe a tirasse do palco e frustrasse seus fãs, de todas as idades, que lotaram o Teatro. Fez dois shows na mesma noite, juntando a sua voz incomparável a performance de seu corpo que a ciência e seu desejo produziram, e ela tem direito.

No intervalo entre um grande sucesso e outro, um pouco de história – de sua história — partilhada com seu público atencioso, respeitoso, confidente…

Grande Elza! Extraordinária!

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Antes de Elza tomar conta do palco, Mônica Feijó mandou ver na linda voz e muita sensualidade.


Dia Nacional do Poeta

outubro 20, 2009

 

 

Ser poeta

 

Ser poeta é ser amada, ser amante

Ser uma mulher completa, homem pleno

É deixar molhar o corpo, no sereno

Deixar-se queimar ao sol, num outro instante

 

Ser poeta é amar, viver mistérios

É sorrir e é chorar de modo igual

Saber misturar em si o bem e o mal

É ser um mendigo e construir impérios

 

Ser poeta é ter em si uma energia

Que é capaz de liberar a fantasia

É ter um olhar sincero e voz sentida

 

Ser poeta é ser tudo isto e mais ainda

É trazer no peito uma ternura infinda

Por aqueles que mais sofrem nesta vida

Lisieux

 

 

 

 


Imagina o barulho que essa “thurma” faz!

outubro 18, 2009

 

Desculpem a repetição que beira a mesmice e a chatice, mas não consigo guardar essas imagens só para mim…

É que eu queria ser ornitóloga, sabe? Daí minha fixação por pássaros. Estes, então, são meu xodó!

Talvez, sabendo disso, como é folgada essa “gente”!!!

E vai rolar a festa, vai rolar!!!

E vai rolar a festa, vai rolar!!!

 

 

Daqui não caio, nem ninguém me tira!

Daqui não caio, nem ninguém me tira!

 

 

Mais um??? Aonde é que ele vai parar!!!

Mais um??? Aonde é que ele vai parar!!!

 

Bronca de amarelos: aqui você já bebeu demais!!!

Bronca de amarelos: aqui você já bebeu demais!!!

 

Beija-flor aqui não passa!!!

Beija-flor aqui não passa!!! Tá tudo dominaaaaado...

 

 

Driblando a vigilância! ("ó... ELE... aí...")

Driblando a vigilância! ("ó... ELE! aí, ó...")

 

Também agito minhas asas bonito!

Também agito minhas asas bonito!

 

Pega ELE, paga ELE, pega!

Pega ELE, pega ELE, pega!

 

huhuuuuu.... nem tenho meeedoooo...

huhuuuuu.... nem tenho meeedoooo...

 

Acabou-se o que era doce... Festa só amanhã!

Acabou-se o que era doce... Festa só amanhã!

 

Hoje essa galera estava tão sedenta que foram duas garrafinhas de “mel”… e cantoria o dia todo!!! Ê, povo baderneiro!!!


Ô, chamego bom!…

outubro 9, 2009

  

 

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Palavras do próprio Chico César ao definir seu show no Projeto Seis e Meia, no Teatro do Parque, quinta-feira.

Definição bem apropriada para o clima que envolveu o cantor, sua magnífica banda e a platéia.

Parecia uma deliciosa brincadeira no quintal de casa, regada à boa música, dança, descontração e uma pitada de malícia inteligente e bem dosada.

Público, cantor e banda integraram-se plenamente, numa parceria calorosa e intimista.

Chico César mostrou aproximadamente 12 músicas de seu novo trabalho, Francisco - forró e frevo. Excelente! Tanto, que o público curtiu à bessa, como se as músicas fossem velhas conhecidas, em que pese a retomada de clássicos populares do frevo e do forró.

De quebra, os presentes ainda puderam saborear o jeito bem nordestino, melhor dizendo,  ”bem paraibano” de ser, que eu, particularmente, gosto muito.  ;-)

Da banda, maravilhosa!, gostaria de destacar a atuação da percussionista Priscila Brilhante que, verdadeiramente, significa um abrilhantamento do show de Chico César, sem nenhum demérito para o cantor e compositor.

Mas a energia vibrante de Priscila contagia. Não dá para desvendar se seu corpo é uma extensão de seus instrumentos ou se seus instrumentos de percussão uma extensão de seu corpo. Comunhão perfeita! Além do mais, eita paulistaninha pra dançar um forró lascado da gota!!! Priscila no palco é puro transe! Catarse?

 

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Antes da apresentação de Chico César, Sérgio Cassiano aqueceu a galera com um show de percussão.

Ex-integrante do Mestre Ambrósio, agora em carreira solo, seu repertório prestigia a cultura popular brasileira, destacando a pernambucana.

Bagaço, Jogo de dentro, A voz, Verbo, Tico tico, Sertão Verde, Á mão e Quando ela roda compõem uma poesia refinada que mistura baião, xote, coco, capoeira, samba de roda e transporta nosso pensamento e imaginação para as manifestações mais genuínas do nosso povo e seus encontros à beira-mar ou nos terrenos de chão batido.

Cassiano, com sua simpatia e presença de palco, que se estende aos demais companheiros de sua banda, manteve a platéia envolvida numa percussão vibrante e criativa por aproximadamente uma hora.

 

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